après tout, nous ne sommes pas charlie*…

afinal ainda existe censura em Portugal. recentemente, um tribunal português ordenou aos principais fornecedores de acesso à Internet (isp‘s) portugueses que bloqueassem, no máximo até ao fim de março de 2015, 30 domínios relacionados com o famoso site de partilha de ficheiros “the pirate bay“. esta medida, não só é estúpida, retrógrada e prepotente como é também completamente ineficaz e, muito provavelmente, ilegal.

é estúpida porque é quase a mesma coisa que mandar proibir vender bebidas alcoólicas nos supermercados simplesmente porque há pessoas a cometer crimes de condução sob o efeito do álcool por causa de bebidas compradas nos supermercados. resolve o problema? não. atinge os responsáveis? não. os supermercados têm alguma culpa? não.

é retrógrada porque nos tempos que correm – e noutros também – a censura não faz sentido nenhum. ainda por cima para favorecer um pequeno mas poderoso grupo de pessoas que se encontram extremamente bem na vida. banir o acesso a certos sites, nem sequer é banir os sites, note-se, é banir o acesso aos sites, é fazer de conta que se fecha, é brincar com as pessoas. isto atinge não só a liberdade comercial dos próprios isp’s – que na verdade não estão a cometer crime nenhum – como também a liberdade individual de cada um dos clientes dos isp’s. é parvo e pronto. a bem dizer, é até um bocado panisgas. eu gostava de ver era um tribunal português mandar fechar o the pirate bay, isso sim, era de macho.

os sites de partilha p2p, como o the pirate bay, por si só não possuem nenhum ficheiro e é por isso que é difícil condená-los judicialmente: seria mais ou menos como mandar fechar a empresa que gere a lista telefónica porque há pessoas a fazer ameaças a outras via telefone e usaram a lista para obter os números… (aquele senhor da camisa de seda que fala sobre este tema na sic é um grandessíssimo totó que não percebe absolutamente nada de informática e ainda menos de metáforas sobre o p2p). o que os sites de p2p guardam e disponibilizam é a indicação de que(m) máquinas estão a partilhar determinado ficheiro, depois a conversa é entre as “máquinas”, daí o “p2p” ou peer-to-peer ou, em português, ponto-a-ponto.

proibir os mapas não impede, nem vai impedir as pessoas de viajarem…

é prepotente porque eu, tal como milhares de pessoas, sou cliente da nos e, como tal, pago uma mensalidade por um serviço de acesso à Internet e não por um serviço de acesso a quase toda a Internet… obviamente, que neste caso, os isp’s não têm grande culpa, contudo, acho estranho não reclamarem, sobretudo pela “legalidade” da coisa.

como se tudo isto ainda não bastasse, a “ordem” foi emanada pelo “tribunal da propriedade intelectual” que, afinal, não pode existir (artº. 209.º nº 4 da constituição da república portuguesa) mas existe e, pelos vistos, manda.

é ineficaz porque basta perceber um bocadinho de computadores para saber que, ao contrário do que o idiota da camisa de seda diz, podemos contornar facilmente este bloqueio, utilizando uma de muitas maneiras: servidores públicos de dns (google, opendns ou outros), editar o ficheiro hosts, utilizar a rede tor, utilizar uma vpn (ex.: hide my ass) ou, simplesmente, visitar um de muitos sites de proxy.

a opção que escolhi foi a de utilizar os servidores públicos de dns da google. não por uma qualquer razão especial mas porque sou malandro e escolhi a que me pareceu ser mais fácil e rápida de executar. de facto, menos de um minuto depois tinha configurado os novos servidores de dns, a cache de dns limpa e o the pirate bay a funcionar correctamente no meu portátil.

antes de utilizar os dns da google:

2015-03-18_11-01-10

 

depois:

2015-03-18_11-03-48

é, na verdade, bastante simples. dns é a sigla do inglês domain name system (sistema de nomes de domínio) e um servidor de dns, basicamente, serve para fazer corresponder determinado nome de domínio (ex: http://thepiratebay.se) a um ip (104.28.5.42) ou máquina. à primeira vista, poderá parecer que a minha ligação à internet ficaria mais lenta, pois de cada vez que exista um pedido, vai perguntar aos servidores da google e não aos da nos. mas não é bem assim. após alguns testes, verifiquei que, no meu caso, e dada a omnipresença da google, é até ligeiramente mais rápido. ao mudar para os servidores de dns da google, em vez de ter uma ligação que pergunta à nos onde se encontra determinado servidor e ficar sujeito à censura, pergunta à google e… voilá!, je suis charlie 😉

não quero com este texto incentivar ou promover a pirataria e, em boa verdade, nem sequer é essa a questão. a questão é: não é um tribunal que nem sequer devia existir que me vai dizer que sites é que eu posso ou não visitar.

* afinal nós não somos charlie.

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